quarta-feira, 26 de março de 2008

deixar você ir

eu não gosto dessa lembrança constante das pequenas coisas, tão pequenas que eu já nem lembro mais quais são. como cortes de papel, elas ardem para um caralho mesmo que eu mal consiga ver que estão ali. me esforço tanto para lembrar dos momentos felizes, quase tanto quanto luto pra afastar as fotos, os emails e aquelas verdades duras logo ali. e ainda assim eu sofro, eu sinto falta de ser infeliz ao seu lado. eu me tornei uma louca, como você fazia questão de repetir a cada briga. insistiu tanto e eu acabei acreditando. sou louca por sentir falta de algo que eu nem sei mais o que é, algo que eu nunca vivi. eu sinto falta de tudo o que a gente poderia ser, da discussão sobre o nome do filho que nunca nasceu, da casa que eu nunca arrumei compulsivamente, do almoço de domingo que daria saudades da comida da minha e da sua mãe, do passeio com o nosso cachorro que nunca foi seu. eu sinto falta dessa vontade de sempre querer mais, mesmo tendo praticamente tudo. eu sinto falta de te culpar por essa incerteza quase tão certeira de que eu nunca mais vou ser feliz, com ou sem você. e quando isso acontece, eu ouço as músicas que você não fez pra mim e essa é a pior dor que eu posso sentir, porque as minhas são bem mais tristes e infelizes do que essas. até o seu sofrimento era mais leve e mais feliz antes de mim. there, there, chega das quase-lágrimas rotineiras, a culpa não é minha. a culpa é do carpete, é do ar-condicionado, da máquina nova de café, do chefe que pega no pé e até do nosso cachorro que é só meu. a culpa é da sua barba por fazer, da banda nova, daquela regata que você não usou, da bateria do celular que não carregou e da banda que terminou. a culpa é dos meus e dos seus amigos. da minha mãe, da sua cunhada e até daquela ex, que você jurou nunca ter sido sua namorada. a culpa é de todo mundo. e acima de tudo, a culpa é toda e só minha ao mesmo em que ela é toda e só sua.

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